MÍDIA E TRANSGÊNICOS
Ciência e os limites da ignorância
Maria Eugênia Carvalho Amaral (*)
Marie Curie foi uma cientista, e graças ao seu trabalho, e de seu marido, o mundo hoje conhece a radioatividade. Essa mulher extraordinária foi a primeira a receber o título de física pela Universidade Sorbonne (na França) e foi laureada com o Prêmio Nobel duas vezes. Apesar da seriedade e competência inquestionáveis, Marie desconhecia algumas propriedades de sua própria descoberta. Afinal, tratava-se de uma nova fonte de energia (radioatividade) que, segundo Marie Curie, "parecia surgir de alguma atividade no interior dos próprios átomos". Essa "alguma atividade", revelada no século 19, mostrou-se com o tempo altamente benéfica, ou maléfica, conforme seu uso e manipulação. Entretanto, Marie Curie, que desconhecia as conseqüências da exposição à radioatividade, durante grande parte de sua vida manteve contato com material radioativo, tanto no laboratório, como no seu quarto, onde substâncias radioativas brilhavam no escuro sobre a mesa de cabeceira. As conseqüências foram dolorosas e fatais. Marie Curie morreu de leucemia provocada pelo lento "envenenamento" radioativo.
Curiosamente, quase dois séculos depois da descoberta da radioatividade, pessoas foram atraídas pela mesma luz e brilho. Desta vez ela era emitida pela radioatividade do césio, e não estávamos na França, mas no Brasil, em Goiânia. Encantadas, algumas chegaram a dormir com as partículas brilhantes do césio espalhadas no colchão. E deu-se a tragédia, ainda recente na nossa memória.
No momento, minha preocupação é com outro brilho. Não o emitido pela radioatividade, mas o da "maravilha", do "novo". Estou falando do brilho dos OGMs (Organismos Geneticamente Modificados). Conhecemos suas propriedades suficientemente bem para liberá-los na natureza? Afinal, o que é um OGM?
Através de técnicas que permitem a manipulação do material genético, uma determinada espécie (soja, por exemplo) recebe gene (unidade fundamental e funcional da hereditariedade) de outra espécie (que pode ser de uma outra planta, ou animal, ou microrganismo). Esse gene novo introduzido na soja é chamado de transgene. Assim, a soja citada não é mais a mesma, ela agora é um OGM (organismo geneticamente modificado ou transgênico. Aquele novo gene introduzido vai se manifestar junto com os demais genes que a soja já possuía, e promoverá algum tipo de mudança na sua vida. De acordo com os fabricantes de OGMs, tais mudanças são sempre atrativas.
Brilhando no escuro
Isso não é ótimo? Então, onde está a polêmica? Acontece que os OGMs são organismos absolutamente novos no planeta. Como eles se comportarão no meio ambiente? Sabe-se também que a engenharia genética ainda não desenvolveu técnicas que garantam exatamente o "local" onde o transgene será inserido e tampouco os efeitos de sua expressão (como ele vai se manifestar), conforme o local em que venha a ser "colado" no material genético de quem o está recebendo. Simplificando ainda mais, nenhum gene age sozinho. Como será a interação desse "alienígena" com os demais? Será que já o conhecemos suficientemente bem?
São tantas as questões... Eu gostaria imensamente de acreditar que o "novo" é bom, sem questionar. Mas a história do desenvolvimento da ciência tem mostrado muito claramente que às vezes manipulamos materiais e fenômenos com total ignorância sobre seus efeitos, não importa quão competente seja a equipe de pesquisadores. A vida de Marie Curie é perfeita para falarmos de conseqüências da nossa ignorância no trato do "novo" em ciência. Entretanto, durante mais de um século, os estudos para a utilização da radioatividade têm produzido vantagens e facilidades para a saúde humana. Quem sabe com os OGMs não será assim, uma questão de tempo e pesquisa para termos segurança com seu uso? Mas, até lá, é necessária muita cautela. Menos empolgação e muito, muito estudo. Vamos responder a mais perguntas.
Por enquanto podemos até sonhar com uma soja brilhando na noite. Teoricamente é muito fácil, basta introduzir um gene que lhe dê a capacidade de ser bioluminescente (emitir luz como os pirilampos, por exemplo). Deveria ser ótimo para colheita noturna, além de lindo. Uma luz encantadora, "brilhando no escuro".
(*) Mestre e doutora em Ecologia pela Unicamp, pesquisadora e professora aposentada da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul; artigo publicado no jornal O Progresso,
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