"MEDICINAS" ALTERNATIVAS
Entre a autonomia e o paternalismo necessário
Celio Levyman (*)
O jornalista Orlando Maretti, em seu comentário sob o título "Arrogante", sobre práticas alternativas à medicina, usa da mesma pretensão de sapiência e arrogância de quem critica. Dentre os princípios da bioética, um dos principais é a autonomia, ou seja, é direito líquido e certo do paciente escolher o profissional e o método que pretende seguir para diagnosticar e/ou curar determinada moléstia.
Por esse fundamento básico, adotado em boa parte do mundo, é por certo o paciente que escolherá o que de melhor lhe aprouver, mas também arcará com as responsabilidades advindas dessa escolha: se, por exemplo, tiver uma doença coronariana isquêmica que implique terapia invasiva vascular radiológica ou cirúrgica, como uma ponte de safena, mas preferir os métodos ditos alternativos e vier a sofrer infarto grave do miocárdio, que levará a uma fração de ejeção extremamente baixa – traduzindo: a maior parte do coração morreu e só resta o transplante cardíaco como opção –, foi sua escolha tratar-se com florais de Bach, homeopatia ou qualquer outro método que não a cardiologia usual que o deixou nessa situação lamentável.
Parâmetros éticos
Seria o mesmo que ignorar a doença cardíaca e nada fazer. É nesse ponto que o médico tradicional passa a limitar essa autonomia, ou seja, se procurado para opinar pelo paciente dirá e ele que deverá usar determinados medicamentos, fazer angioplastia ou cirurgia. Caso o paciente recuse e procure métodos ditos naturais, estará novamente fazendo uso de seu direito de autonomia, mas com riscos de ir a óbito extraordinariamente aumentados.
Da mesma forma, ataca quem combate o errado: a crítica aos conselhos de medicina é válida, embora pessoalmente prefira sua manutenção, lembrando ou informando ao jornalista que os CRMs e o CFM obedecem a uma anacrônica legislação federal, de 1957, que até o presente dia não pôde ser atualizada por conta do lobby dos militares das Forças Armadas, temendo que os CRMs empreendam temporada de caça aos médicos militares que pudessem ter participado de violação dos direitos humanos nos tempos do regime militar, e dos empresários da saúde, que querem ver os conselhos punindo apenas pessoas físicas de médicos, e não fiscalizando e eventualmente aplicando penas às empresas mercantilistas de saúde.
Politizar esse tipo de debate não leva a nenhum avanço: está acima citado o exemplo da Lei dos Conselhos, e o mesmo vale para a desgastada alegação de Orlando Maretti, praticamente colocando todos os médicos tradicionais como marionetes da indústria farmacêutica, o que não ocorreria com os homeopatas ou outros alternativos.
Ora, evidentemente as grandes companhias multinacionais farmacêuticas comportam-se como empresas de qualquer outro ramo, não tendo em geral os mesmos parâmetros éticos dos médicos que prescreverão seus medicamentos, e alguns médicos podem mesmo alimentar seu conhecimento apenas com o material fornecido por tais laboratórios.
Conforto psicológico
Mas é aviltar e generalizar a inteligência da categoria médica como um todo considerar que todo médico é um títere de tais grandes laboratórios: querendo ou não, as propagandas e brindes, além da visita dos representantes de laboratórios, ocorrem em todo lugar, mas os médicos sabem perfeitamente discernir em relação àquilo que pedirão ao paciente que tome para tratar alguma condição mórbida – o conhecimento na área médica nunca esteve tão fácil de ser obtido como agora, com a internet à mão de todos.
Não será uma caneta ou bloquinho de anotações de um laboratório que farão o facultativo se tornar servil a ponto de trocar suas convicções científicas baseadas em evidências claras por um fármaco que lhe fez um afago...
Também há o comentário não menos arrogante do senhor Orlando Maretti quanto à possível origem germânica de missivista anterior, valorizando o fato – que assumirei para diminuir o embate como verdade – que 30% da população alemã fazem uso de métodos alternativos. Caro Orlando Maretti: em variadas universidades e instituições hospitalares do Hemisfério Norte há centros de estudo das chamadas terapias alternativas e complementares, pois em muitas situações os pacientes continuam com o tratamento convencional.
Mas, se a doença de base for um câncer, uma vasculopatia grave, um diabetes avançado, um mal de Alzheymer que avança, tornando cada dia mais irreconhecível a memória de uma pessoa, também pelo princípio da autonomia ela vai procurar complementar o tratamento, provavelmente dentro de sua colocação estatística, através de outros meios, e tais centros estão avaliando o real benefício agregado ao tratamento convencional dos métodos alternativos e complementares – até o momento, os dados publicados por tais instituições mostram apenas um conforto psicológico maior.
Bom senso
Citar a Alemanha é querer entrar em polêmica maior ainda, pois justamente nesse país, em passado não tão remoto assim, não se ensinava ética médica aos alunos de Medicina, razão pela qual muitos profissionais germânicos não acharam grandes erros em participar das experiências com prisioneiros na Segunda Guerra. Mesmo após o Tribunal Militar para Médicos de Nuremberg, em 1948, menos famoso que o primeiro, que julgou os grandes nomes do nazismo presos pelos aliados com toda a pompa e circunstância, as coisas mudaram muito. A partir de 1948 apareceram as primeiras normas éticas para pesquisas em seres humanos, o chamado Código de Nuremberg, mas ética só passou a constar do currículo de todas as escolas médicas alemãs a partir dos anos 60, o que faz crer que muitos médicos alemães ainda na ativa não compartilham das opiniões morais e éticas de seus colegas ocidentais mesmo nos dias de hoje.
A Alemanha e a Suíça conseguem ao mesmo tempo reunir excelentes centros de pesquisa, diagnóstico e tratamento, enquanto também por lá campeiam médicos que promovem charlatanismo sem precedentes – há o caso emblemático do famoso cantor de reggae Bob Marley, que em fase avançada de câncer preferiu se tratar em clínica alemã onde o próprio médico o considerava uma "ameaça negra", e utilizou métodos como solitária e jejum e ingestão de desconhecidos medicamentos, que só fizeram o citado artista morrer de forma ainda mais sofrida. Esse relato é público, a mãe de Bob Marley e seus amigos é que contam o que ocorreu. O médico responsável pelo tratamento do jamaicano havia servido como médico militar durante a Segunda Guerra. E o jornalista faz o favor de dizer que Hannehmann era alemão...
O autor critica os céticos que não acreditam nas terapias alternativas, mas também politiza a questão e não usa racionalidade: não se exige que reúna conhecimento científico e técnico, mas apenas bom senso. E é isso que falta na argumentação.
(*) Médico, mestre em Neurologia pela Escola Paulista de Medicina, ex-clinical and practice fellow da University of Pittsburgh School of Medicine, ex-conselheiro do Conselho Regional de Medicina-SP
Leia também
Cinco falácias e um funeral – Francisco Stefano Wechsler
Nivelando por baixo – Paulo Bento Bandarra
Arrogante – Caderno do Leitor