|
CIÊNCIA & CONHECIMENTO
Mídia e a reprodução da lógica fácil
Ulisses Capozzoli (*)
Para a mídia nacional e internacional o ano certamente termina sob o impacto da captura de Saddam Hussein e as conseqüências que essa conquista do governo conservador de George W. Bush terá em áreas que vão de uma possível reeleição, passando por uma pacificação cada vez mais distante no Oriente Médio e eventualmente, estendendo-se até a Lua. Embora, à primeira vista, esta última relação possa parecer exagerada.
Seguramente faltarão, ao menos a curto prazo, análises mais abrangentes sobre quem foram os criadores desse tirano que governou o Iraque, o berço da história, como uma fazenda particular, dizimando desafetos como animais de abate, ao longo de quase 25 anos.
A mídia é uma caixa de ressonância controlada pela lógica fácil. O tratamento articulado e historicizado quase sempre é a exceção. Os assuntos de capa da revista semanal de maior tiragem, ao menos no Brasil, é a melhor evidência dessa futilidade.
A guerra ao Iraque, sustentada por uma ciência de fronteira, foi um dos acontecimentos do ano.
Uma ciência refinada cada vez mais está a serviço da destruição, sem que a comunidade internacional tome uma posição crítica a respeito disso, como aconteceu ao final da Segunda Guerra Mundial.
A ciência está camuflada nos bastidores do poder.
"Conhecimento é poder" é uma frase repetida por homens que vão de Francis Bacon a Sigmund Freud.
O Brasil produz ao menos 1,6% do conhecimento científico internacional o que nos dá alguma margem de manobra. Mas aqui também existem problemas sérios e não poucos.
As discussões envolvendo os organismos geneticamente modificados (OGMs), os transgênicos, foram motivo de pequenas batalhas pela mídia especialmente no segundo semestre, e esses desencontros deverão estender-se pelo próximo ano.
O governo tem tido um posicionamento desencontrado em relação a transgênicos, valendo-se de medidas provisórias para contornar fatos consumados, como o plantio da soja geneticamente modificada com sementes contrabandeadas da Argentina.
Para os críticos dessa tecnologia o Brasil perderá mercado internacional com culturas transgênicas. Para os defensores, as possibilidades serão ainda mais promissoras. A verdade, no entanto, é que ninguém sabe o que vai acontecer. Ainda não é possível prever o futuro.
A transgenia, de qualquer maneira, é parte de um processo de redesenho da vida que começou com a fundação da agricultura, há 12 mil anos, em terras que agora pertencem ao Iraque. E inclui, entre outras áreas, a clonagem de plantas, animais e humanos.
Boa parte da reação aos transgênicos tem fundo religioso. Isso não significa que sejam questões sem relevância. De qualquer maneira os livros religiosos já deram provas de que não são as melhores referências para o governo das nações. E disso não escapa a Casa Branca, que começa o expediente com leituras da Bíblia.
Além dos transgênicos outro assunto emperrado no Brasil é o programa espacial, deflagrado em 1961 pelo então presidente Jânio Quadros.
O incêndio do Veículo Lançador de Satélites (VLS) ainda na rampa de lançamento, em agosto passado, atrasa ainda mais um programa fora dos cronogramas por décadas inteiras. As 21 mortes exigiram uma pausa para avaliação e, certamente, reformulação de metas e estratégias.
Os jornais passaram boa parte do tempo de 2003 e do ano anterior acompanhando as discussões em torno do aluguel de base de Alcântara, no Maranhão, para lançamentos norte-americanos. A base e o frustrado foguete brasileiro integram a Missão Espacial Completa Brasileira (MECB).
O ego astronômico do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fez com que o Brasil escolhesse até um astronauta, como se isso pudesse acrescentar algo de relevante às pesquisas nacionais.
Na verdade, podemos ter um pequeno espaço no quarto de serviços da Estação Espacial Internacional, mas a um custo de vários milhões de dólares.
A idéia de um astronauta poderia perfeitamente ser revista em nome da racionalidade e da aplicação mais promissora de recursos. Mas um programa especial articulado, da mesma forma que na área de transgenia, é de importância estratégica para o Brasil.
Conservadorismo e burocracia
O programa espacial que ainda não produziu seu foguete tem relações curiosas com o tirano Saddam Hussein. A militarização excessiva desse programa levou o Brasil a vender foguetes, inicialmente de sondagens atmosféricas, transformados em armas de destruição pela extinta Avibrás.
Os negócios com Saddam Hussein irritaram os países do clube espacial e eles negaram ao Brasil tecnologias estratégicas que inviabilizaram o foguete.
Com o foguete atrasado não há como manter ativa a base de Alcântara e uma base espacial sem atividade não resiste aos desencontros tecnológicos e de pessoal. Assim, alugar para empresas norte-americanas foi uma solução considerada razoável.
Desencontros desse tipo no Brasil não são propriamente novidade.
Em 8 de junho próximo haverá um trânsito de Vênus.
A passagem desse planeta interior pelo disco do Sol ocorreu pela última vez em 1882 e o imperador Pedro II disparou uma expedição subantártica, a Punta Arenas, no extremo Sul do Chile, para acompanhar o fenômeno. À época, a observação precisa era uma maneira de se conhecer a distância Terra-Sol (150 milhões de quilômetros, o que os astrônomos chamam de uma Unidade Astronômica).
A Revista Ilustrada, à época uma das publicações de maior prestígio, reproduziu D. Pedro II como um perfeito lunático e o chargista Ângelo Agostini dividiu com um político medíocre, Silveira da Motta, munição farta para torpedear a expedição.
A expedição, mesmo chegando com algum atraso ao seu destino, conseguiu um dos melhores resultados do fenômeno.
Mas em outras ocasiões as coisas não correram tão bem. Quanto Emmanuel Liais, astrônomo francês trazido pelo mesmo D. Pedro II quis implantar a astrofísica – então em desenvolvimento no que é hoje o Observatório Nacional – o pensamento conservador e a burocracia reagiram juntos. Liais foi derrotado e continuamos, por muito tempo, restritos à astronomia de posição.
Qual o custo dessa perda de oportunidade? Ninguém sabe dizer.
Manchas urbanas
Em outros momentos, em diferentes contextos, tivemos bons resultados.
Foi o que aconteceu com o programa de combate à Aids que, no Brasil, manifestou-se há 20 anos. O programa nacional de enfrentamento dessa doença evitou uma catástrofe que a maior parte das pessoas talvez não tenha podido perceber.
Para permitir um desenvolvimento mais significativo da ciência brasileira, certamente é preciso repensar a universidade, como vem pregando o ministro Cristovam Buarque.
Fazer a reforma, além de enfrentar o corporativismo que suga as energias e os recursos da universidade, implica uma reformulação de posturas e isso quase sempre é mais fácil de falar do que fazer. Mas é outra de nossas necessidades.
Fortalecer a pesquisa universitária é abrir caminho para o futuro. Investigar das potencialidades das células-tronco para uma quase infinidade de usos às possibilidades da teoria de cordas, na física, para explicar como o Universo é, como é, e por que estamos aqui.
O Brasil, por sua posição geopolítica, tem desafios incomuns à maioria dos chamados "países emergentes".
Temos compromissos que nos prendem ao fenômeno do efeito-estufa, o aquecimento global do planeta, no sentido de desvendar o papel das florestas pluviais, caso da Amazônica, no seqüestro do carbono atmosférico.
Temos obrigação moral, como detentores do maior estoque hídrico do planeta, em dar uma solução para a oferta de água potável a toda a população.
Devemos participar de pesquisas de ponta como a construção de satélites para a detecção de planetas do porte da Terra em torno de outras estrelas da Galáxia, como ocorre, neste momento, em parceria com a França.
Ou de satélites de sensoriamento remoto para exame de manchas urbanas, acompanhamento de safras agrícolas e uma outra série de aplicações, como vem acontecendo num trabalho conjunto com a China, o mais novo membro do clube espacial.
Contribuição exótica
Temos obrigação de promover uma interação de áreas de conhecimento buscando uma síntese capaz de representar, com vantagens igualmente estratégicas, a diversidade étnica de nossa população.
Devemos fazer bem o nosso trabalho, como demonstrou, em fins de junho passado, o astrônomo Augusto Damineli. Ao final de quase 200 anos de mistérios envolvendo Eta Carina, a maior e mais luminosa das 200 bilhões de estrelas da Galáxia, Damineli demonstrou que Eta Carina não é uma, mas duas estrelas. Um sistema binário oculto por uma nuvem de gases e poeira, quebra-cabeça que havia derrotado inteligências notáveis da astronomia internacional.
Quanto ao retorno à Lua, evidentemente, não é uma tarefa nossa.
Ao longo deste ano, por várias vezes se falou num retorno à Lua, como mostrará na edição de janeiro, a revista Scientific American Brasil.
Há quem diga que uma eventual reeleição de Bush pode levar os Estados Unidos a liderar um retorno à Lua.
A captura de Saddam Hussein, na medida em que facilita o caminho político de Bush, poderia ser uma exótica contribuição nesse sentido.
Como se vê, a máquina do mundo nem sempre faz sentido. Ao menos de imediato.
(*) Jornalista, doutor em ciências pela USP, editor de Scientific American Brasil
|