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DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA
Uma profissão à espera de escolas
Nilson Lage (*)
Há um nicho no mercado de trabalho quase vazio há bastante tempo, e é inadmissível que as pessoas não se tenham dado conta disso.
Deparei-me com esse nicho quando se colocou para o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), que venho dirigindo por indicação do ministro Roberto Amaral, a necessidade imperiosa de tratar a informação científica e tecnológica com o objetivo de informar, atualizar ou educar pessoas não especializadas, ou especializadas em outras áreas de conhecimento. Isto é: "o público" em geral e "os públicos" que se formam em torno de interesses profissionais, culturais ou pessoais específicos.
A preparação das mensagens para esse fim deve ter tratamento profissional. Inclui o domínio de ambientes multimídia para edição e editoração de texto, de som e de imagem parada ou em movimento. Mas envolve também competência para produzir a mensagem conforme as características do público receptor, com base em suposições abalizadas sobre seus valores e ergonomia cognitiva, isto é, sua maneira de pensar e as referências estéticas que valoriza. E, finalmente, exige responsabilidade técnica e ética pela correção e adequação da imagem processada.
Nomeamos a função como "provedor de conteúdo em bancos de dados de acesso público" e traçamos um possível perfil do profissional desejado, listando as seguintes atividades ou habilidades:
** Percepção e entendimento de linguagens técnicas e científicas de diferentes áreas e/ou capacidade para compreender conceitos, relações e processos de raciocínio dessas áreas;
** Transposição de informação técnica e científica para linguagem de uso comum ou para discursos textuais e/ou gráficos capazes de ser compreendidos por algum público-alvo pré-definido;
** Cumprimento em suas tarefas das normas usuais do português do Brasil como língua de cultura, com elevados padrões estéticos, atendendo, sempre que adequado, a critérios dominantes regionalmente e/ou a variantes de qualquer natureza aceitáveis no contexto desses padrões;
** Comprometimento com os objetivos de divulgação do conhecimento científico e tecnológico como forma de desenvolvimento humano, de inclusão social, de melhoria dos padrões de saúde, da atividade produtiva e da qualidade de vida, bem como os valores éticos da ciência e da informação;
** Trabalho conjunto e cooperativo com equipes científicas e tecnológicas de diferentes áreas de conhecimento, bem como o respeito a dados e informações quantitativas ou qualitativas sobre os públicos-alvos, seu repertório e padrões de ergonomia cognitiva;
** Edição de texto, som e imagem, incluindo planejamento gráfico, tratamento de imagem e som em linguagem adequada para diferentes media. Atuação cooperativa com webmasters e designers eventualmente incorporados à equipe;
** Apuração de informações em fontes primárias e secundárias, tratamento semântico e sintático de informação, pesquisa de dados básicos e complementares, contextualização da informação científica e tecnológica da perspectiva do público em geral ou de públicos específicos.
Educação permanente
Onde encontrar pessoas com esse conjunto de habilidades? Observem a dificuldade de destacar, no quadro lamentável do ensino de humanidades, quem tenha compromisso com o português brasileiro como língua de cultura, quando uma quadrilha de sujeitinhos pedantes pretende que ela não seja isso, de forma alguma; ou descobrir gente que cultue a ciência, remando contra a maré de crendices, superstições e afirmações duvidosas que banha esses ambientes acadêmicos.
Parece-nos que o único curso de graduação brasileiro que pretende – e raramente tenta de fato – ensinar jovens a escrever é o de jornalismo (há outro, o do Instituto Rio Branco, mas quem se forma lá tem destinação fechada). No entanto, a competência técnica exigida é bastante refinada e, principalmente, o compromisso com a ciência (que resulta de toda uma formação cultural) pode não caber, acredito, em uma graduação.
Outro aspecto é que a atualidade e oportunidade tornam-se, aí, quase irrelevantes: a matéria-prima tanto pode tratar de temas palpitantes, como a conquista do espaço ou a clonagem, quanto de universos de conhecimento ainda muito pouco divulgados, como o extraordinário avanço da matemática nos últimos 30 anos ou as aplicações à primeira vista aberrantes da Teoria dos Quanta em Física.
O caminho, como tenho discutido com meus colegas na Associação Brasileira de Jornalismo Científico (vários deles efetivamente especializados, em nível de doutorado) e propus ao ministro de Estado, é preparar quadros em programas de pós-graduação com a validade, no mínimo, dos mestrados profissionalizantes. O conteúdo incorporaria conhecimentos de ciência da informação, ética e método científicos, especificidades dos diferentes campos da ciência etc.
O que dificulta isso é a extrema dificuldade de se instalar qualquer pós-graduação voltada para a abertura de novos horizontes aos jornalistas, não para criticá-los, como é rotineiro; com décadas de experiência, sei que os comunicólogos que controlam a área "científica" jamais recomendariam ou alocariam recursos para tal empreitada. O apelo, então, que dirijo é aos cientistas de verdade, interessados também em que o conhecimento chegue ao povo brasileiro; e a quem "pode mais" do que esses acadêmicos.
Trata-se do único caminho para termos, em curto e médio prazos, educação permanente no campo científico e tecnológico e efetiva inclusão social, em mundo que será dominado pelo retorno periódico à escola, pelos recursos da educação a distância e da informação lúcida sobre o que efetivamente importa na definição de nosso futuro como nação.
(*) Jornalista, professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina
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