OFJOR CIÊNCIA

FURO & FUROS
Jornalismo científico e interesse público

Rafael Evangelista (*)

É frequente que, ao se comentar a importância do jornalismo científico, ressalte-se seu valor como instrumento complementar ao processo educativo formal – já que, para tratar dos assuntos da ciência, é preciso, de alguma maneira, relatar os conhecimentos consolidados por ela. No entanto, o jornalismo científico não deve ter a educação como seu objetivo principal. Assim como todos os outros ramos do jornalismo, seu objetivo maior deve ser tratar de assuntos que sejam de interesse público, informando os leitores de maneira que possam participar ativamente da vida pública e dos processos decisórios da democracia. Com a crescente tecnologização do mundo e com a apropriação cada vez mais intensa que o capital procura fazer da ciência, esse papel, ligado ao interesse público, ganha ainda mais relevância para o exercício da cidadania.

O jornalismo científico que tem esse tipo de preocupação não é aquele que fica encerrado dentro da pequena caixinha "Ciência" que os jornais diários costumam criar. Ele encontra-se espalhado pelas diversas editorias, da Política ao Esporte, passando certamente pelos cadernos de Cultura e de Economia – quando estes resolvem dar espaço a discussões que vão além da repetição do "pensamento único".

Tendo esse modelo de jornalismo científico em mente, a revista ComCiência, que em agosto completa dois anos como órgão Laboratório de Estudo Avançados em Jornalismo (Labjor) e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), vem conseguindo "antecipar" a discussão de algumas questões importantes da realidade brasileira.

O caso mais recente ocorreu na quarta-feira (24/7), quando a Folha de S.Paulo anunciou em sua primeira página a existência de diversos documentos que revelavam a interferência do militar brasileiro Marcos Antônio de Oliveira no processo de licitação do Sivam, o Sistema de Vigilância da Amazônia. Os documentos obtidos pela Folha mostraram que, a partir de informações conseguidas por meio de espionagem, foi obtida uma declaração do militar brasileiro de que o sistema não tem, prioritariamente, fins militares. No mês anterior (em 10/6), a revista ComCiência já informava, a partir de relatórios da Comissão do Parlamento Europeu de Estrasburgo, que a empresa norte-americana Raytheon, vencedora da licitação do Sivam, interceptou dados do processo em que concorria com uma empresa francesa. A Raytheon fez uso do Echelon, o sofisticado sistema de satélites e de interceptação de informações utilizado pelo governo norte-americano. O Echelon, uma realidade admitida internacionalmente, é pouquíssimo discutido na mídia brasileira, que trata do assunto como se fosse ficção científica. O texto da ComCiência fez parte de uma grande reportagem que procurou mostrar as íntimas conexões existentes entre a Guerra e a Ciência.

Outro assunto que não tem merecido o devido destaque da imprensa são os casos de contaminação da água e do solo pelas indústrias. O episódio mais notável foi protagonizado pela Shell, em Paulínia (SP), mas há diversos casos em todo o Brasil. Em 14 de setembro do ano passado, ComCiência já noticiava que a região dos lagos do pólo cerâmico de Santa Gertrudes, no interior de São Paulo, apresentava contaminação por metais pesados, constatada por pesquisadores do Centro de Pesquisa de Águas Subterrâneas da USP. Em 19 de julho deste ano, a Vigilância Sanitária de Piracicaba interditou dois poços e passou a realizar análises da água da região, a partir de parecer da Cetesb feito em 10 de junho. O assunto ganhou, então, a cobertura local.

Novas ferramentas

Uma história que até agora não foi bem explorada pela mídia é a dos quilombolas que vivem na região da base de foguetes de Alcântara, no Maranhão. Construído em cima de solo quilombola, o famoso Centro de Lançamentos de Alcântara (CLA) notabilizou-se com o acordo para sua comercialização feito com os Estados Unidos. Mas até hoje o CLA não possui licenciamento ambiental (EIA-RIMA) que autorize seu funcionamento, justamente porque ocupa o território de uma comunidade tradicional que tem tido seus direitos violados. Existe, nesse sentido, uma denúncia feita na Organização dos Estados Americanos contra o governo brasileiro. A revista ComCiência acompanha o assunto desde fevereiro de 2001, quando abordou a falta de licenciamento ambiental. O caso é emblemático de uma política desenvolvimentista que ainda persiste e insiste ignorar e desconhecer as populações negras e pobres, forçadas a compartilhar uma modernidade utópica que só as empobrece mais e destrói sua identidade.

Fazer jornalismo científico não é somente anunciar as histórias de sucesso de novas descobertas nos diferentes campos do conhecimento. É, também, levar ao conhecimento público os problemas e os dilemas éticos da ciência, sem fugir de assuntos que comprometam a imagem da ciência como promotora do bem-estar universal.

O fazer científico vai muito além do que tem sido anunciado nas páginas de ciência dos jornais. E não é um caminho tranquilo, sem sobressaltos – pelo contrário: é cheio de contradições e desafios. Dele faz parte não só a procura por novas ferramentas tecnológicas como a busca pelo conhecimento como um todo – sobre o homem, a natureza, a sociedade e as coisas. O jornalismo científico, por sua vez, não pode ignorar esse fato e precisa tomar como seus esses temas, para que sua atividade possa contribuir com o exercício da democracia. Dessa forma, poderá ser a janela para vislumbrar um mundo maior do que o que nos é mostrado.

(*) Editor da revista ComCiência <www.comciencia.br>; e-mail: <rae@unicamp.br>

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