OFJOR CIÊNCIA

INOVAÇÃO TECNOLÓGICA
Nova agenda para a universidade e a empresa

Bruno Dorfman Buys (*)

Um sintoma de que estamos ficando velhos é quando começamos a perceber que algumas coisas que antes pareciam ter vindo para ficar, no fundo têm mais a cara de modismos. Explico: há uns dois ou três anos, uma expressão tem ocupado gradativamente os canais de informação da comunidade acadêmica e da pesquisa científica brasileira: "inovação tecnológica".

Inovação tecnológica é vendida como a peça que falta ao quebra-cabeças do ciclo ciência básica – ciência aplicada-patente-setor produtivo – para que o Brasil quebre as amarras do subdesenvolvimento e, finalmente, parta seguro rumo ao título de país desenvolvido, economia do conhecimento ou qualquer outro slogan desses. A inovação é defendida e incentivada como prioridade em diversas políticas públicas, notadamente pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e pela mais poderosa das agências estaduais de fomento, a Fapesp. Inovação tecnológica é a agenda do dia.

Na quarta-feira (24/7), em evento de comemoração aos 35 anos da Finep, o ministro da Ciência e Tecnologia Ronaldo Mota Sardenberg salientou a importância da inovação tecnológica frente aos desafios de crescimento econômico e de geração de empregos enfrentados pelo país. A própria Finep, uma agência financiadora de estudos, está comprometida diretamente com esta função, uma vez que seu perfil de atendimento é de pesquisas voltadas à inovação tecnológica.

O ministro tem, inclusive, atuado prioritariamente dentro da questão da inovação, desde seus esforços para reunir pessoas e instituições nas discussões preparatórias do Livro Verde da Ciência, Tecnologia e Inovação (e até modificando a tradicional sigla C&T para C,T&I, com a inclusão do "I" de "inovação"), no segundo semestre do ano passado.

Mas como os ecologistas e economistas sem dúvida nos alertariam, o recurso é limitado. Não é possível atender com mais verbas um área de pesquisa sem deixar algum outra desatendido. Não é também possível aumentar verbas para uma certa região do país sem deixar alguma outra região sem dinheiro. Por este motivo, as políticas públicas têm que reconhecer prioridades de pesquisa e apoiá-las, e o lado duro é que isto acontece em detrimento de outras linhas de pesquisa.

Por causa disso, vejo com certa cautela os louvores cantados à inovação tecnológica. Mais ainda quando o exemplo que ilustra os casos de sucesso é a Coréia do Sul, um país do tamanho do Espírito Santo e ocupado por um povo de cultura radicalmente diferente da brasileira.

Inovação nas universidades públicas

Nas universidades públicas é possível e provável que o interesse repentino por inovação tecnológica gere alguma política de financiamento que deixe grupos de pesquisa básica desassistidos, porque "não têm aplicação". Mais problemáticas ainda podem ser as repercussões nas pesquisas em ciências humanas, que pensam a ética, identidade e cultura do nosso povo e que geram a crítica que o Brasil e os brasileiros precisam. Mas não produzem inovação industrial.

Não se trata de desmerecer a inovação tecnológica. Até porque o problema da inovação possui um tom de crítica ao modelo que vivemos hoje, e que resgata um conceito tornado demodé no fim dos anos 80, que é o da substituição das importações. Ao inovar, a empresa brasileira deixa de comprar tecnologia estrangeira e enviar recursos para fora do país. E isto nada mais é do que a substituição das importações, uma política industrial iniciada por Getúlio Vargas e considerada obsoleta no começo dos anos 90.

A própria política formulada pelo ministro Sardenberg lucidamente ataca um dos pontos centrais do problema no Brasil, quando diz que "a efetiva realização da inovação tecnológica, porém, compete essencialmente às empresas". Como o investimento em desenvolvimento tecnológico é, na prática, um investimento de risco, é sempre evitado se houver outra alternativa. O Estado brasileiro tem sido tradicionalmente o principal financiador da pesquisa científica feita no país. E é este quadro que deve mudar. A inovação, sendo de interesse primário da indústria, deve ser feita na indústria. E não na universidade pública, freqüentemente cobrada por isso.

Como tudo no Brasil, cobre-se um santo para descobrir vários outros. Prioridade para a inovação tecnológica não pode se transformar, no frigir dos ovos, em um critério de prioridade para a pesquisa aplicada e de corte para a pesquisa básica. Também não pode se tornar um mote de privatização da universidade pública, levada à interação com a indústria e à execução dos interesses tecnológicos desta. Estes dois perigos não são remotos, e sim muito próximos de nós.

O Brasil é um país hetergêneo e complexo. De norte a sul temos grupos de pesquisa com a atenção voltada a diferentes categorias de problemas. Alguns procuram intervir na realidade local e regional. Outros têm sua referência de trabalho em questões teóricas de fundo e geram conhecimento que não tem prazo previsível para se incorporar à cadeia produtiva. E nós precisamos de todos eles. Cabe ao adminstrador a sutil arte de incentivar o aparecimento do que ainda não existe sem destruir o que existe e dá certo. Isto porque o todo esse sistema foi montado à custa de muito trabalho e sacrifício.

(*) Biólogo