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REPOSIÇÃO HORMONAL
Diferentes formas de apresentar uma polêmica

Boletim Saúde Reprodutiva (*)

Uma grande pesquisa sobre terapia de reposição hormonal (TRH) em mulheres na pós-menopausa, patrocinada pelo governo americano, foi suspensa porque se constatou que o tratamento havia aumentado os riscos de as pacientes terem doenças como câncer de mama, derrame e ataque cardíaco.

Todos os jornais e revistas acompanhados [pela Rede Feminista de Saúde] deram a notícia, com maior ou menor ênfase sobre os riscos descobertos e o dilema que o estudo trouxe para mulheres e médicos. Com uma matéria de capa intitulada "Traídas pela medicina", a revista Época apresentou, dentre todos os veículos, a reportagem mais ampla, diversificada e detalhada sobre o assunto. Além de informar os resultados da pesquisa americana, a matéria trouxe, ao longo de suas seis páginas, diversos depoimentos de mulheres e especialistas sobre a TRH.

Entre as conclusões, uma surpresa

A pesquisa americana envolveu 16.608 mulheres de 50 a 79 anos e avaliou apenas um tipo de combinação hormonal – estrogênio extraído da urina de éguas grávidas e acetato de medroxiprogesterona – que é vendida sob os nomes comerciais Premarin e Premele. Estima-se que cerca de 30% das brasileiras submetidas a TRH recebam essa combinação.

Segundo especialistas consultados, já se suspeitava que o uso de hormônios estava relacionado a um maior risco de câncer de mama. O que surpreendeu os médicos foi o risco cardíaco. "Trabalhos anteriores apontavam que a TRH diminuía a ameaça de doenças cardiovasculares. O estudo americano demonstrou que, nesse tipo de terapia, ela não melhora a proteção do coração. Piora", lamenta José Artistodemo Pinotti, professor de Ginecologia da Universidade de São Paulo.

"Essa revelação é mais uma prova de que a medicina é uma ciência de verdades apenas transitórias", reconhece o médico Jorge Souen, chefe do Setor de Oncologia Ginecológica da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Variações sobre o mesmo tema

As manchetes dos jornais e revistas monitorados apresentaram a mesma notícia com diferentes ênfases. "Repor hormônios na pós-menopausa pode ser problema" (Estadão); "Estudo aponta risco em reposição hormonal / Terapia hormonal não reduz risco cardíaco" (Folha); "Combinação hormonal traz risco de câncer" (Correio Braziliense); "Reposição hormonal elevaria risco de câncer" (Globo); "Reposição hormonal não traz benefícios" (JB); "Reposição polêmica – Estudo mostra que um tipo de terapia com hormônios ameaça o coração" (IstoÉ); "Alerta às mulheres – Quatro milhões de brasileiras fazem terapia de reposição hormonal. E muitas delas tomam um remédio condenado por um estudo americano" (Veja); "Terapia de risco – Estudo americano sobre reposição hormonal provoca rebuliço no meio médico e traz um dilema às mulheres" (Revista da Folha); "Traídas pela medicina / Um golpe na confiança – Adeptas da reposição hormonal, legiões de mulheres ficam desnorteadas com estudo que comprova risco de câncer de mama" (Época)

Prós e contras da TRH

Algumas das reportagens apresentavam tabelas com as principais conclusões do estudo (disponível em inglês em <www.jama.com>) sobre os efeitos da reposição após cinco anos de terapia: prós, 37% de redução de câncer retal, 30% menos de fraturas dos quadris e 24% de redução de fraturas em geral; contras: 41% de aumento dos derrames, 29% mais ataques cardíacos, 26% mais câncer de mama, 22% de aumento de doenças cardiovasculares e 2 vezes a taxa de tromboembolia.

Já a reportagem de capa da Revista da Folha mostrava os mesmos dados de forma diferente – e talvez menos impactante: "Além de não ajudarem a evitar algumas doenças, como se acreditava, os hormônios podem aumentar os riscos de câncer invasivo de mama (oito casos a mais para cada grupo de 10 mil mulheres submetidas a tratamento por um ano), ataque cardíaco (sete a mais) e derrame (oito a mais)".

Novas condutas e dilemas

As reportagens eram unânimes em apontar que, diante dos resultados da pesquisa, passa a ser desaconselhável tomar hormônios preventivamente, uma medida que já contava com o apoio de muitos médicos e pacientes. E a decisão de submeter-se à TRH por mais de cinco anos também deve ser analisada cuidadosamente, caso a caso. Segundo os especialistas consultados pelas reportagens, os médicos terão de pesar individualmente as vantagens e desvantagens da TRH e não podem mais transferir às pacientes a decisão de repor ou não hormônios. "As mulheres, por sua vez, precisam ser informadas de tudo em linguagem clara e objetiva, e devem evitar o ônus de uma decisão solitária – afinal, não são profissionais de medicina", escrevem as repórteres da Época.

"Não recomendamos o uso de hormônios para prevenir doenças, mas também não achamos que as mulheres devam entrar em pânico", declarou à Revista da Folha o americano Garnet Anderson, um dos coordenadores da pesquisa suspensa. "Se a mulher está fazendo o tratamento para prevenir doenças do coração, ela seguramente deve parar. Se é para prevenir osteoporose, deve falar com o médico, pois há outros medicamentos disponíveis que comprovadamente não fazem mal. Se toma para aliviar sintomas da menopausa, precisa discutir com ele se o ganho é maior do que os riscos", recomenda Anderson.

Na opinião da cardiologista Nannette Wenger, da Universidade Emory (EUA), a única razão para uma mulher continuar tomando a combinação hormonal seria para aplacar sintomas muito graves da menopausa.

Um pouco de história

A reportagem da Época informa que a popularidade da reposição deve ser creditada em grande parte ao médico americano Robert Wilson, "que fez carreira como garoto-propaganda dos hormônios". Em 1966, ele publicou o livro Feminina para sempre, no qual dizia que as drogas resgatariam as mulheres dos horrores da menopausa – que ele chamava de "terrível doença que leva à decrepitude". Segundo a reportagem, sabe-se hoje que Wilson era financiado pelo laboratório Wyeth, fabricante do Premarin. Para Robert Wilson, receitar hormônios seria algo tão natural quanto oferecer insulina aos diabéticos. "Seios e órgãos genitais não murcharão. As mulheres terão muito mais prazer em viver e não se tornarão lerdas e pouco atraentes", dizia Wilson.

A reportagem lembra que, com esse discurso, Wilson "comprou briga com as feministas, que, há quase 40 anos, repudiam o método. Elas denunciam o discurso machista segundo o qual as mulheres devem estar sempre jovens, sedutoras e prontas para o sexo". "Há uso abusivo de hormônios porque a sociedade foi convencida de que todas têm de fazer reposição ao entrar na menopausa. Essa visão falsa é fruto da postura acrítica dos médicos que só lêem material fornecido pelos laboratórios", diz a médica Maria José de Oliveira Araújo, responsável pelo programa de saúde da mulher da Prefeitura de São Paulo. A revista apresenta Maria José como integrante da Rede Feminista de Saúde e autora de um dossiê sobre menopausa, disponível na internet <www.redesaude.org.br>.

A matéria da Revista da Folha lembra que como o alto custo – entre R$ 30 e R$ 100/mês – torna a TRH acessível a uma pequena parcela da população feminina no Brasil, calcula- se que elas fiquem entre 10% e 20% das mulheres de classe média e média alta, segundo Geraldo Rodrigues de Lima, professor de Ginecologia da Universidade Federal de São Paulo. Sobre o número de mulheres que usam a TRH no país, as estimativas variam entre 2,2 milhões (Sociedade Brasileira de Climatério) e 4 milhões (Febrasgo, Federação Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia).

(*) Publicação eletrônica quinzenal da Rede Feminista de Saúde; URL: <www.redesaude.org.br>; e-mail: <saudereprodutiva@uol.com.br>

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